Lantana 2.0 :: metonímia e sinédoque

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Bota, Lisboa, 16 de Janeiro. O colectivo Lantana apresentou ao vivo os resultados de uma residência artística durante a qual gravou aquele que poderá ser o seu segundo álbum, sucedendo a “Elemental”. O concerto teve todas as características de um acontecimento inter pares: entre o público que encheu a sala estavam muitos músicos das mais distintas tendências, bem como figuras da dança, da performance, do teatro, do cinema, das artes plásticas. Estas presenças eram significativas quanto à relevância conquistada pelo sexteto ao longo dos últimos anos e as expectativas relativamente a um seu regresso aos palcos. Mas ninguém estaria à espera que, naquele instante, Lantana renascesse. Ou melhor, que fosse ao mais fundo da sua identidade musical para daí tirar um 2.0 do que já lhe tínhamos ouvido. Era a mesma música, mas com outras configurações. Com mais vocais (todas cantaram e, numa passagem, até em coro), mais percussiva (com, por exemplo, manuseamentos de folhas secas de árvore diante dos microfones), mais electrónica (todos as cordas estavam ligadas a pedais de efeitos) e mais variada timbricamente (com adição de harmónicas, de um sopro híbrido de clarinete e chifre de cabra, de taças tibetanas). Também mais performativa, com toda uma gestualidade que não derivava directamente da execução instrumental, num surplus de enigmática significação que acrescentava o ver ao escutar.

A célula de trabalho que estava diante de nós foi ritualística no seu desempenho, dedicando-se a um esoterismo sónico que tanto nos reenviava para os primórdios do fazer musical, num primitivismo misterioso, como anunciava porvires post-everything que eram mais interrogativos do que simples enunciados, possibilidades e não antecipações ou declarações de princípio. Havia uma confluência de matrizes, umas clássicas, camerísticas, provenientes da música contemporânea (graças sobretudo a Maria do Mar), outras folk, no sentido da edificação de um folclore imaginário e universalista (Helena Espvall e Joana Guerra), outras por via do free jazz e demais adopções afrológicas (a exemplo de uma incursão passageira pelos blues por parte de Anna Piosik), outras ainda vindo do concretismo e da acusmática (as manipulações da voz e da água por parte de Carla Santana) ou da glossolália Dada (Maria Radich). Havia, sobretudo, o que estava além desses labores de desconstrução, materiais que não “pertenciam”, que não correspondiam a qualquer tradição, que simplesmente aconteciam porque sim, ou porque a intuição é mais abrangente do que quaisquer deduções “composicionais”.

Mais importante do que tudo, Lantana criou uma música plasmada no feminino, nos ciclos da Lua e das marés, da vida vegetal e das migrações dos pássaros. Era um mundo uterino, estrogénico, venusiano, feito ora de melancólicos sussurros ora de raivas incontidas e alegrias súbitas, num encadeamento empático e sensitivo, para não dizer xamânico e… sim, de bruxaria. Nesta noite, Lantana conseguiu dar um género à música, essa arte em que ao longo de séculos e séculos se pretendeu mascarar a masculinidade com um pretenso estado neutro. É neste aspecto que o grupo faz toda a diferença e será isso o que explica o interesse crescente que vem obtendo: na música livremente improvisada em que por cá se milita nada encontramos que esteja próximo. A não ser algo que as seis lantanas proponham on the side.

Efeito afecto

Era preciso dar tempo ao tempo para verificar se, de facto, Lantana está a viver uma segunda vida. Não tanto pela confirmação que pudesse dar outro concerto (isso só acontecerá, em 2025, mais adiante), mas pela verificação do que fizesse (ou tivesse feito) cada uma das suas integrantes no intervalo entre o final do ano que passou e os indícios que poderia haver de um “efeito Lantana” até ao termo deste mês de Fevereiro. Foram duas as questões que me coloquei: 1) as mais recentes evoluções das individualidades reunidas no sexteto terão influído nesta nova caracterização de Lantana?; e 2) até que ponto esta mutação de Lantana está a reflectir-se nas actividades paralelas de Carla Santana, Anna Piosik, Joana Guerra, Helena Espvall, Maria Radich e Maria do Mar? Estabeleci esses marcos temporais no período entre a apresentação do duo de Carla Santana com Carlos Santos a 7 de Dezembro de 2024 no festival Curto-Circuito, organizado pela Miso Music para o O’culto da Ajuda, e a actuação a solo de Anna Piosik numa double bill promovida pela Nariz Entupido e pela Out.ra no Passevite, hoje mesmo, dia 20, com a segunda parte a cargo de Anla Courtis.

Muito havia em que reparar: todas estas seis músicas (que se dane o sexismo gramatical contido no termo “músicos”) estão bem activas na presente cena portuguesa das músicas experimental e improvisada, todas com os seus projectos próprios ou envolvidas em colaborações. No caso da primeira, a dupla com Santos foi a reactivação de uma cumplicidade já antiga que se abriu a novos e surpreendentes resultados, uma música orgânica e de partilha (difícil foi perceber quem produzia que sons, entre tanta parafernália electrónica) que proporcionou ao público uma viagem aos níveis micro e macro, tão introspectiva quanto cinematográfica, ora lenta, paisagística, ora com inesperadas erupções, inquietudes, interferências, colapsos. As urdiduras eram as da electroacústica composta em tempo real, vulgo EAI, mas estava implicada toda uma história de ramificações e divergências. Mas vamos por partes…

Santana é uma das personalidades que estão por detrás da designação Griot 3000 (as outras são Rodrigo Brandão, Luís Vicente, Braima Galissá, Thiago Leiros Costa e Dudù Kouate), que amanhã toca no Salão Brazil, em Coimbra, depois de uma semana de residência artística e de uma actuação, a 15 de Fevereiro, no Centro Cultural de Belém. Seria de estranhar que ela estivesse envolvida numa criação conotável com o afrofuturismo? A resposta só pode ser um “não”. Antes esteve com o Barullo Colectivo (ao lado de José Lencastre, Clara Lai e João Valinho) em três ocasiões sucessivas, de 8 a 10 de Fevereiro, que tiveram lugar no Centro Cultural de Setúbal, na Penhasco e no O’culto da Ajuda, esta com transmissão pela Antena 2. Electrónica em contexto avant-jazz? Pois então, ainda que se trate de alguém que transitou do rock e da guitarra eléctrica…

A 26 de Janeiro, Santana tocou com João Carreiro e César Burago na Lota da Robalo (Penhasco). A música tocada por estes dois nomes é intencionalmente “pequena”, e essa é uma dimensão por ela apreciada e cultivada. No final do ano que passou, gravou no estúdio Namouche o primeiro álbum de uma nova formação, Quarto Com Luz, que inclui Samuel Gapp, Michael Schiefel, Helena Espvall e João Valinho, e a 30 de Novembro esteve com eles (menos Valinho) na Cossoul. Vamos reencontrá-la numa situação de interstício, algures entre os padrões do jazz e uma abordagem desafiadora de rótulos. Ouvimo-la (e a Maria do Mar) em “Caesium”, disco do Isotope Ensemble de Ernesto Rodrigues saído recentemente que foi captado no último Creative Fest, evento em que também participou com Flak e Luísa Gonçalves a 24 de Novembro, na Casa do Comum. Integrou o Nude desta pianista ao lado de Gileno Santana, Joana de Sá, Yedo Gibson e Bruno Parrinha em dois gigs, um a 3 de Novembro na Casa do Comum e o outro no Clube Fenianos do Porto a 15 do mesmo mês. Nas três circunstâncias, abraçando a improvisação integral, buscando a utopia não-idiomática sustentada por Derek Bailey e a utopia trans-idiomática do mestre da colagem, John Zorn: é essa a sua causa primeira, a sua tarefa de Sísifo.

Piosik iniciou o ano com a gravação de um disco a solo, a ser editado pela 4DaRecords em meados de 2025, consequência do concerto com o mesmo formato que protagonizou no derradeiro Festival Múltiplo da Zaratan. A 17 de Outubro, ouvimo-la com Helena Espvall, João Madeira e João Valinho no ciclo Acasos ao Ocaso (Oficina das Artes). Um território “jazz-não jazz” que a trompetista e cantora de origem polaca conhece bem. Fora do âmbito musical, tem em mãos o work-in-progress transdisciplinar “Como Comer o Passado”, em volta dos saberes ancestrais – os da aldeia de Alfafar, distrito de Coimbra, onde a associação cultural e ambientalista Lugar do Meio tem a sua sede – sobre a utilização de plantas silvestres tanto na gastronomia como na medicina e no imaginário popular contado e transmitido de geração em geração. Como poderia Anna Piosik não estar incluída nas reinvenções Lantana da mãe-natureza, de Gaia, de Demeter, de Pachamama, de Cybele, de Ninhursag, numa perspectiva pós-humanista?

Pelo seu lado, Joana Guerra esteve a 6 de Fevereiro no Musicbox, em solo inserido numa iniciativa da Gravvilha. Na mesma altura foi anunciado pela Bandcamp que o seu álbum com Manja Ristic e Verónica Cerrotta, “Slani Pejzazi”, havia sido contemplado com o prémio Best Experimental Music of 2024. Atentemos na faixa “Diario de Sueños” e tiremos as nossas conclusões quanto à emergência de uma música intrinsecamente feminina e recuperada do domínio patriarcal. A violoncelista vinha de uma parelha com Gil Jerónimo que teve lugar no Convento de São Francisco em Coimbra e no Teatro Municipal de Bragança, respectivamente a 17 e 18 de Dezembro, e da apresentação do seu trio com José Lencastre e João Valinho na SMUP, a 7 de Novembro. De um lado a subversão do cançonetismo, do outro a disputa de territórios sob a soberania do jazz.

Pouco antes, Guerra esteve com Maria do Mar na cidade de Katlijk, Países Baixos, em tomadas com os irmãos Romke e Jan Kleefstra para uma edição da Moving Furniture Records marcada para 2025 e que será a quarta parte da série de música e poesia IT DEEL. Qual das disciplinas artísticas se torna “programática” e é colocada “ao serviço de”, a música ou a poesia? O propósito é o de sempre, problematizar, tornar incerto. Foi no ano passado, também, que saiu o CD “Vagar”, de Carlos Martins, misto de jazz e cante alentejano, com a sua intervenção e a de músicos como Paulo Bernardino, Manuel Linhares, Mário Delgado, João Bernardo, Carlos Barretto, Alexandre Frazão e o grupo Procante. Joana Guerra não cola as duas dimensões, está num “além” que justifica o seu equacionamento.

Espvall também não pára. Estará incluída no álbum de Tó Trips que sairá já em Março, “Dissidente”, enquanto parcela do grupo Popular Jaguar, no qual encontramos também António Quintino e Alexandre Frazão. Uma violoncelista sueco-americana do psicadelismo weird folk que já pertenceu aos Espers somada a um guitarrista de rock que se fascinou com as músicas do mundo e a dois instrumentistas de jazz, ampliando (e dissolvendo?) essa categoria a que se chama fusão desde a década de 1970. A 19 de Janeiro apresentou-se na Penhasco com Norberto Lobo e Alvaro Rosso, um descendendo do universo de John Fahey e Robbie Basho, o outro de Bertram Turetsky, Stefano Scodanibbio, Peter Kowald, Barre Phillips. Uns dias antes, a 11, esteve com Luís Vicente no Paraíso 45, um encontro que só não era improvável porque com Helena Espvall é tudo uma questão de probabilidades. Teve dois momentos grandes em 2024: uma ida, em Julho, ao Konfrontationen Festival de Nickelsdorf com os Torquoise Dream, de que é um dos alicerces com Marta Warelis, Carlos “Zíngaro” e Marcelo dos Reis, e uma participação no Jazz em Agosto da Gulbenkian, com Maria da Rocha e Lobo. Outro ponto alto foi a sua prestação com Ernesto Rodrigues e Tracy Lisk no Cosmos, em Maio. Nó comum: a improvisação como metalinguagem.

Da parte de Maria Radich chega-me a informação de que está a dirigir o movimento de mais uma produção da Companhia de Teatro do Chapitô, com estreia esperada para o próximo mês, depois do sucesso obtido por “As Formigas”, baseada no conto com o mesmo título de Boris Vian. A cantora e bailarina abriu o ano com um magnífico solo na ZDB a 9 de Janeiro, na primeira vez em que processou a voz com uma loop station e em que (agora que está extinta a banda de rock Abztraqt Sir Q) voltou a utilizar texto numa língua reconhecível, o Francês. Também ela contribuiu para o que foi o Creative Fest 2024, emparceirando com Guilherme Rodrigues e Richard Scott a 22 de Novembro. O corpo e a sua epiglote expressiva como instrumentos: a música enquanto emanação do carbono, do pó das estrelas, do húmus da Terra, de um essencialismo que se mexe e continuamente se transforma, que flui, que vai e vem como as ondas em todas as aparições públicas de Radich, seja com ou sem Lantana.

Rasto e lupa

Dada a impossibilidade de acompanhar todos estes actos, segui o rasto da lantana de que falta aqui observar o caminho percorrido nestes últimos meses, Maria do Mar. E isto porque é a que, por esta altura, está a ter uma actividade mais intensa, logo potencialmente mais reveladora. A violinista tem rodado algumas novas iniciativas, começando por três duos. Kokota Mabaya, a sua parceria com César Burago, passou pela ZDB (9 de Janeiro), pela Casa da Cultura de Setúbal (11 de Janeiro, num split com os Sucuri de André Hencleeday e João Silva) e pela Cigarra (15 de Fevereiro). A colaboração com João Camões arrancou no O’culto da Ajuda a 8 de Fevereiro. A que tem com o saxofonista José Lencastre teve a sua inauguração na Cigarra como primeiro set da apresentação com o percussionista que conhecemos de vários grupos conduzidos por Sei Miguel. Outros duos estão em preparação, com Adriana Sá (em fase de finalização de misturas para um disco e com um agendamento para Maio, se bem que com um convidado ainda em segredo), com a bateria de Tracy Lisk, com a coreógrafa e performer Yael Karavan e com o cineasta experimental Olivier Perriquet, este com duas marcações já fechadas para o Verão.

Kokota Mabaya é um mergulho no espaço, mais do que um mecanismo de conversão musical do tempo. O que não se toca é tão importante quanto qualquer vibração que percorra o ar. Há silêncios, e os silêncios fazem parte das arquitecturas, prendem-nos nelas. A prestação de César Burago é minimalista, diminuta a maior parte das vezes, obsessiva. É chão, parede e tecto. O violino de Mar irrompe dela em floração, muito naturalmente, como um espécime botânico. Completa, expande, mas não procura o limite. O despojamento é a única regra deste jogo a dois em que a texturização vale mais do que a procura da melodia ou do ritmo.

A dupla com o violetista João Camões vem de outro lado, é ligetiana, ainda que informada pelo tipo de relacionações instrumentais estabelecido pelo jazz mais livre. Há mesclagem sonora assim como há trocas de papéis, em intercalação de situações ao sabor do momento. Em nenhuma altura se pressente que há uma escrita prévia, ao contrário do que se verifica na maior parte da improvisação de câmara: percebe-se a busca e entende-se a descoberta, de tal modo que são esses os factores de gancho das atenções. Com José Lencastre, Maria do Mar coloca-se no âmbito das próprias contradições criadoras da música livremente improvisada, seja opondo, seja fazendo convergir as formas clássicas e as do jazz para perceber onde faz sentido aceitar as suas respectivas ou cruzadas influências e onde se pode escapar às mesmas. O violino e o saxofone são representativos de dois mundos fechados, mas a atitude é de abertura total, que não a de um pretenso third stream, também ele virado para dentro.

O trio de Maria do Mar com Catarina Silva e Ana Albino, Arpyies, tocou no O’culto também a 8 de Fevereiro e antes no Creative Fest, a 21 de Novembro, tendo entretanto ido para estúdio: o CD vai sair pela Profound Whatever quando em Abril a banda estiver em digressão por Berlim e Eindhoven. Estas duas performances não poderiam ter sido mais diferentes. A do ano transacto foi atribulada, irrequieta, direcionando-se gradualmente para um clímax condizente com a estética do grito – digamos que numa versão punk e juvenil de Lantana. Na sala da Miso Music, Arpyies vestiu outra pele: ainda que com passagens de maiores volume e agitação, e com sujidades acústicas (da trompa, do violino), eléctricas (da guitarra) e electrónicas (recorrendo Albino a um sintetizador e Mar a uma pedaleira), a música vagueou por mares calmos e contidos, de uma poética feminina (e declaradamente feminista) em que couberam citações processadas de “As Novas Cartas Portuguesas”. A morte de Maria Teresa Horta, uma das autoras do histórico livro, acabara de ser noticiada.

A solo, Mar esteve no Café Dias a 23 de Janeiro, desdobrando-se entre o violino, a violeta, a voz, a percussão e a electrónica, em data dividida com um ex-colaborador de Caetano Veloso, Ricardo Dias Gomes. Oportunidade ideal para a escutar à lupa: começou por um drone analogicamente intervencionado e daí evoluiu para explorações de harmónicos, linhas de corda dupla e arcadas largas, xadrezes tímbricos e de dinâmicas, tribalismos cantantes, ecos longínquos, dobragens, oitavações e toda uma série de vocabulários convencionais ou extensivos. Com um carácter pastoral, evocativo e sonhador que me fazia vagamente pensar na transição do romantismo para o serialismo por parte de Schoenberg.

Enquanto lêem esta prosa, Maria do Mar está numa residência da Bóia no Algarve que conduzirá a uma participação em Setembro no festival Paragens, que acontecerá em Lagoa, Loulé, Faro e Monchique. Em Março, antes de partir para Viena a fim de tocar com músicos locais, adaptará o seu “Grão” – que teve a versão “Grão_X” na Barroca do Zêzere em 2024, com acrescentos pontuais das Adufeiras do Paul e de membros do team Profound Whatever, numa organização da ADXTour e do Jazz ao Centro Clube com apoio da Direcção-Geral das Artes – à especificidade cultural e natural de Alfafar, combinando recolhas de som, de imagem e de objectos. Poderá não ser outro “Grão”, mas terá um semelhante cunho de experimentação das, e com as, raízes. Planeado para este ano está, também, um disco a solo tematizado em torno da ideia de uma música líquida, à semelhança da peça videográfica que tem publicada na revista de arte online Wrong Wrong, “Águas Tortas”.

Para além da união de forças com os holandeses Kleefstra e com Joana Guerra, o encontro de Maria do Mar com a poesia está em continuação. A 1 de Fevereiro foi ao Wonderpuppet com o declamador João Morales e Hernâni Faustino, num evento que assinalou o 100º aniversário de Alexandre O’Neil, “Olhar a Vidinha Bem de Frente”. O entrosamento que vem estabelecendo com o contrabaixista de combos como o Motion Trio ficou, uma vez mais, confirmado. A 4 de Novembro de 2024 acompanhou o encenador e actor Miguel Loureiro na leitura que homenageou os 500 anos dos sonetos de Camões no Café Dias. No ano que deixámos para trás, em Junho e Agosto, participou com Gisela Casimiro na performance de stand up poetry “Estragaram-nos a Festa, Pá!” da Farra, proposta pela Appleton ao Museu de Arte Contemporânea de Elvas e realizada no Cine-Teatro Municipal da cidade. Foi com a palavra, ainda, que lidou em Berlim, incorporada no elenco do Opera Lab para o espectáculo “Silencio, Por Favor!”, no qual em Abril e Maio tocou John Cage e cantou “Silence is Sexy”, dos Einstuerzende Neubauten.

São vários os planos, mas em todos eles reencontro Lantana, assim como em Lantana detecto a presença de Maria do Mar. Não se trata apenas de um determinado estilo, de uma maneira especial de praticar a improvisação, mas de algo maior, ainda que dificilmente verbalizável: a manifestação de um âmago em movimentações excêntricas, de um átomo que se multiplica. Explico: há coincidências entre o modo de estar Lantana e os modos de estar das suas figurantes em outras acções, o que seria de esperar, mas verifico, sobretudo, que – mesmo na hipótese de não terem de tal plena consciência, mesmo não tendo de tal havido formulação – as seis cabeças de Lantana, os 12 braços executantes de Lantana, articularam-se em diversas frentes nas mesmas miradas de Medusa. Este desfecho é simultaneamente metonímia e sinédoque, pars pro toto e totum pro parte. Fragmentação integrada. Reenvio. Os motivos? Encontrar alguma explicação seria retirar agência à música. Deixemo-la solta. (foto: Mário Mar)